Da esteira, donde se chega a nenhures sem sair do lugar – é por isso que sempre levo um livro, para chegar a algum lugar, ainda que imaginário, nesses 30 minutos de caminhada – , se tem uma boa visão do espaço. É pequeno. As esteiras ficam num canto, atrás delas, só a parede. Não há espelhos. Não aqui. Só lá na frente, ao lado dos aparelhos, pesos e estações. Lá onde se fala em exercícios multiarticulares, hipertrofia, séries, repetições, massa muscular e suplementos alimentares.
Caminho, caminho, caminho. O livro cobre o painel e assim não fico olhando quantas calorias já escorri pelos poros. As calorias devem sair com o suor. Caminhando, suando e escorrendo calorias. A leitura minimiza a sensação estúpida de andar sem sair do metro quadrado. Retângulo. A esteira tem formato de retângulo, é mais comprida. Olho para ela e reparo que preciso de um par de tênis novo. A mocinha na esteira do lado tem um tênis novo. Toda sua roupa é nova, aliás. A calça corsário em supplex, o top preto, a camiseta branca por cima do top. Tudo novo. Ah, vou pra academia. O verão está chegando e preciso entrar em forma. Posso perder 4 quilos por mês e então... Já sei, vou comprar roupas pra ir à academia. E um tênis novo, claro. Posso ir todos os dias à academia. Vou precisar de mais de um tênis, mais roupas... É a empolgação. Da idéia de emagrecer – esmagrecer, como já ouvi falarem por aí – à volúpia do consumo é um estalo. E depois o verão passa tão rápido quanto a vontade de ir à academia todos os dias.
- É a Bíblia que você está lendo? – pergunta Tênis Novo.
Porque o livro é grosso é uma Bíblia. É prosa, não está vendo? Esses parágrafos enormes te parecem versículos?
- Não, não é. O livro é grande, mas não é a Bíblia.
- Ah...
Devo ter me livrado de alguma construtiva conversa evangélica. Talvez não. Não sei. Do outro lado. Lá do outro lado vejo que acaba de chegar o João. João, o grandão. Mas só da cintura pra cima. Que não me interpretem mal, não conheço os documentos do moço. É a desproporção entre seus braços e pernas. Seu tórax e braços parecem prestes a explodir. Enormes, musculosos. Inchado e inflado, seu ego se examina no espelho enquanto busca, não muito discretamente, por olhares de admiração. Mas suas pernas são muito finas. Mais finas que as minhas. João, o finão. Um triângulo de cabeça para baixo. E lá vai o geométrico João levantar pesos – puxar ferro, como se diz. Deitado, ergue por sobre a cabeça uma barra de ferro que quase verga sob peso das pesadíssimas rodelas em suas extremidades. João leão. Ruge com seu peitão mostrando o esforço que fazem seus bíceps, tríceps e quadrúpedes.
Duas adolescentes sorridentes – adolerridentes, diria Joyce, talvez – montam nas bicicletas ergométricas. As bicicletas levam ao mesmo destino das esteiras: nenhures. Chamam o instrutor que não demora a tendê-las. Precisam de orientações? Sabem configurar a carga da pedalada? Sabem escolher os programas da bicicleta?
- Pois não.
- Põe a TV na novela pra gente???
- Ah, a TV. Claro. Tudo bem pra vocês? Posso por na novela?
- Por mim, sem problemas. (Estou lendo a Bíblia mesmo)
- A novela! Também quero ver! – exclama com entusiasmo Tênis Novo.
De videoclipes de bandinhas ruins – o único clipe razoável que passou desde que cheguei foi o novo da Madonna – para um folhetim também ruim. Seis por meia-dúzia. Seis. Acho que passaram seis videoclipes desde que estou aqui, caminhando. Me distraí com o livro, com o tênis, com João Geométrico Finão. Ergo o livro e o painel marca 28:33. Quase terminando. Vejo que suei 178 calorias. Agora vou fazer 20 minutos de alongamento. Estou precisando. Relaxar, desestressar. Depois pedalo um pouco. Pra suar. E então pedalo daqui pra casa.














