Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Michael Jackson: A morte como espetáculo

O “Rei do Pop” - epíteto que Berry Gordy, fundador da gravadora Motown, já diz ser pouco para Michael Jackson - tem na morte a bizarra continuação do que foi em vida: um espetáculo estranho e comovente no qual tudo ganha proporções homéricas.

Morto no último dia 25 de junho, vítima de uma parada cardíaca, o cantor quebra recordes de vendas de discos, de audiência na TV e na internet - através das quais as cenas de seu funeral, com um caixão dourado e florido, direto do Staples Center em Los Angeles, chegam ao mundo todo. O tráfego na web ficou 9% acima do normal durante a transmissão do funeral do músico.

Funerais e homenagens são uma forma de elaborar o luto - um processo de aceitação e superação da perda de uma pessoa querida - e por isso são comuns em diversas culturas desde a antiguidade. A realização de festas ou eventos com comes e bebes é também usual para o ritual de despedida que é um funeral. Mas no caso de Michael Jackson, o rito de passagem (do próprio) e o luto (de todos os demais) ultrapassa o simples - ainda que triste - sofrimento que produz a finitude da existência.

Para a celebridade que foi Jackson, e para o mundo atual, no qual todos nós vivemos, é preciso que uma imagem do cantor moribundo e entubado seja ampliada até a desfiguração e reproduzida exaustivamente. É preciso um caixão de US$ 25 mil banhado a ouro. É preciso que se distribuam ingressos para assistir ao funeral. É preciso um ginásio lotado. É preciso que milhares de pessoas se aglomerem e um helicóptero (ou mais) filme e transmita a cena para dentro da sua casa. É preciso que uma garota de 11 anos diga para 6 bilhões de pessoas que amava o pai.

Precisamos realmente deste circo, como a atriz Elizabeth Taylor nomeou o evento ao negar o convite para participar? Mas é exatamente assim que o espetáculo da morte de Michael Jackson culmina: como se fosse um circo. Todos os olhos do mundo se voltam para o caixão dourado colocado em uma plataforma especial - e o soberbo ataúde nos lembra que o homenageado não está lá, já não existe mais.

Ao redor desse vazio, da casca dourada que indica a falta, o palco se enche de celebridades, luzes, flashes, música, lágrimas, sorrisos, declarações de amor e discursos comoventes. Só faltou que os cantores se apoiassem no caixão como se ele fosse um piano ou um púlpito.

Hoje já não há mais luto fechado, aquele que exigia vestimenta preta dos pés à cabeça e um comportamento sóbrio e recluso. Hoje, todo luto é aliviado - permite cores mais leves. Mas no caso de Michael Jackson o luto é aberto, refletindo a ânsia do ser humano em transformar tudo num fenômeno de imagens, sons e estatística. O luto por Michael Jackson é aberto ao público, à TV e se espalha pela rede.
Esse texto eu publiquei originalmente no Território da Música.

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Ai meu jezuiscristinho!

Recebi no meu e-mail de trabalho uma nota falando sobre uma entrevista que o cantor Alice Cooper deu a uma revista de música cristã falando sobre sua fé. Alice Cooper abraçou o cristianismo na década de 80, mas não fica fazendo propaganda disso. Até aí, tudo ok.

Logo na sequência, uma pessoa, como direi?, apoucada, clica aquela opção 'responder a todos' do e-mail e resolve fazer um comentário criticando o cantor. Entre outras bobagens, ela manda:

"Ele diz que é convertido faz muito tempo, mas só agora declarou na entrevista... quantas vidas foram pro inferno, neste período que ele como celebridade se omitiu ??? Vamos refletir galera....."

Não tenho nada contra cristãos. Mas é difícil suportar tamanha estupidez.

1) "Quantas vidas foram pro inferno"? Nenhuma. No cristianismo só se vai 'pro inferno' depois de morto. Assim, nem nesse período, nem em qualquer outro uma vida 'foi pro inferno'.

2) Se as almas foram 'pro inferno' é porque cometeram pecados e não porque Alice Cooper não saiu do armário pagão. Os candangos que não tivessem cometido pecados se não quisessem ir 'pro inferno'.

3) Essa é a pior de todas. A moça, que se diz cristã, comete a maior das blasfêmias ao insinuar que Alice Cooper poderia ter salvo as pobres almas. Até onde eu sei, em 2 mil anos de história do cristianismo, só Jesus Cristo redimiu pecados alheios.

Obs. 1: Não sou cristã, nem tenho nenhuma religião. Sou agnóstica.

Obs. 2: Se os pecadores realmente vão para o inferno ele vai ficar bem cheio. Mas se fossem os ignorantes pra lá ficaria lotado. Satã e as górgonas teriam dificuldade em organizar a fila na entrada.

Obs. 3: Que tal deixar Alice Cooper fazendo o que sabe? Ele é cantor de rock. Quem quiser orientação espiritual que procure um padre, um pastor ou coisa que o valha. Será que essa cristã vai ao mecânico quando tem dor de dente?

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

O novo álbum do Móveis Coloniais de Acaju

Se o nome do novo álbum dos brasilienses sugere que falta alguma coisa à banda, deve ser isso: falta você ouvir. A "feijoada búlgara", como acabou definido o som quando do lançamento do primeiro álbum, continua em "C_MPL_TE".

A diferença da estréia com "Idem" para este segundo álbum talvez seja a experiência. A estrada, a temporada fora do Brasil, a gravação anterior e, claro, o olhar e ouvidos precisos do produtor Carlos Eduardo Miranda, só lapidaram o que já era precioso.

As guitarras indie de "Indiferença", "Lista de casamento" e "Falso retrato (u-hu)" - que mesmo assim não dispensam os outros elementos que os músicos exploram - puxam o álbum para o rock, mas é no resultado geral que se apóia o talento do grupo. Um talento que não cabe num rótulo porque não se limita. A música do Móveis se espalha.

Outro ponto alto do álbum são as letras das canções. Além de criativas e inteligentes, trazem um jogo de palavras e sentidos que fazem do som dos fonemas um elemento a mais na música da banda. Tanto no lirismo de "Descomplica" quanto no humor-crítica de "Cheia de manha" ou no tom grave de "Bem natural" isso fica prá lá de evidente.

Bem natural, aliás, é a maneira como grupo mistura naipe de metais ska, guitarras rock, alguma psicodelia, elementos chamados regionais, MPB, arranjos e a voz marcante de André Gonzáles.

Mas não é apenas na sonoridade que o Móveis mistura estilos. A banda também tem seu lado punk no que diz respeito ao manejo carreira. No melhor estilo DIY (Do It Yourself, faça você mesmo), o grupo produz seu próprio festival, cria e vende suas camisetas, acessórios e álbuns e ainda organiza suas turnês.

Com a saída de Leonardo Bursztyn (guitarra) e Renato Rojas (bateria), hoje a banda conta com André Gonzáles (voz), BC (guitarra), Beto Mejía (flauta transversal), Eduardo Borém (gaita cromática e teclados), Esdras Nogueira (sax barítono), Fabio Pedroza (baixo), Fabrício Ofuji (produção), Gabriel Coaracy (bateria), Paulo Rogério (sax tenor) e Xande Bursztyn (trombone).

Imperdível, "C_MPL_TE" é fácil de ouvir porque sua melodia não se perde mesmo com tantos detalhes, arranjos, efeitos e elementos. É uma música ricamente elaborada mas extremamente acessível.
Essa resenha eu escrevi para o Território da Música.

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Iggy Pop Jazz: e não é que ficou bom?

Iggy Pop fazendo baladas jazz em francês e com efeitos eletrônicos? Sim, é estranho. Mas imperdível. Com mais de 60 anos, Iggy Pop não pára de surpreender. Quando todos achavam que o veterano estava acomodado ao punk rock que o projetou na cena musical, eis que ele anuncia um álbum com sonoridade jazz.

Estranho num primeiro momento, o anúncio foi fazendo sentido aos poucos. Os fãs foram assimilando a idéia. E quando o álbum chegou - antes disso algumas canções já podiam ser ouvidas na internet - parecia que Iggy Pop já fazia aquilo há muito tempo.

“Préliminaires” ficou assim: o músico parece tão à vontade cantando canções como “I Want To Go To The Beach” e “How Insensitive”, que é fácil imaginá-lo fazendo isso novamente. “How Insensitive”, aliás, é uma versão para “Insensatez”, de Antônio Carlos Jobim, que ficou bem mais lúgubre que a original, acompanhando o clima do álbum.

É claro que há momentos agressivos e com ‘riffs’ sujos. “Nice To Be Dead” é um rock que remete às raízes de Iggy Pop. Outra canção que tem jeitão punk é o ‘single’ “King Of The Dogs”. Mesmo não sendo um rock, tem uma aura totalmente sarcástica e sua letra inclui versos como “I have a piece of meat in between my teeth” - mais punk, impossível.

Mas “Préliminaires” não surgiu do nada. O álbum foi inspirado no livro “A Possibilidade de uma Ilha”, do escritor francês Michel Houellebecq. O estilo provocador e ofensivo do escritor combinou perfeitamente com a loucura agressiva de Iggy Pop. A morte é o tema central do álbum.

O teor melancólico do repertório toma como base a concretude da morte, como revela a letra falada de “A Machine For Loving”, que narra a morte de um cão. Não é aquela beleza gótica da morte, sensível e sensual. É a morte mais crua, direta, que marca um vazio, a finitude. A poesia, se podemos chamar assim as letras de “Préliminaires”, segue essa linha conceitual.

Como se pudesse segurar toda a intensidade das faixas, “Les Feuilles Mortes”, canção francesa com poemas de Jacques Prévert, abre e fecha o álbum com o vozeirão grave do norte-americano cantando a morte que separa os amantes. Iggy Pop conseguiu com “Préliminaires” aquilo que muitos artistas tentam sem muito sucesso: se aventurou por terras desconhecidas sem perder a personalidade.
Essa resenha foi publicada originalmente no Território da Música.

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Tão triste!

Terminei de ler "Doutor Jivago". Transcrevo um trecho que é o início do fim de Iúri Andreevitch...

"A desgraça espiritual aguçava a sensibilidade de Iúri Andreevitch. Percebia tudo mais nitidamente. O que estava ao redor adquiria traços singulares raros, até mesmo o ar. Com uma participação nunca vista, respirava a noite invernal, como uma testemunha simpatizante. Parecia que nunca havia escurecido assim até agora, e anoitecera pela primeira vez somente hoje, para confortar o homem que se tornara órfão e solitário."
Boris Pasternak in "Doutor Jivago", pp. 619

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Lendo no frio


Sem pensar escolhi a época certa para ler "Doutor Jivago", clássico do escritor russo Boris Pasternak. Com a semana gelada que tivemos em São Paulo (e em todo o sul do país), criou-se um clima propício para a leitura.

O frio de Iuriatin, os ventos de Varikino, a paisagem coberta de neve da Sibéria onde Iúri é forçado a servir aos vermelhos não é o que vejo da minha janela, é claro.

Aqui não há neve, nem fome. Mas o ar gelado, que a roupa não consegue barrar, os ventos que a janela não impede de entrar pelas frestas me fazem mergulhar no drama dessa Rússia revolucionária.

Ler é sempre um prazer, mesmo com esse frio todo.

Foto: Morning, de Kamakaev

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Nada como uma paulada bem dada

Cheguei à conclusão de que preciso de uma paulada bem dada na minha têmpora esquerda. Uma hemorragia leve é bem vinda. Assim, o lado esquerdo do meu cérebro daria uma folga ao direito. E aí, quem sabe, eu pudesse ser mais criativa e produtiva.

Dizem os especialistas que é o lado esquerdo o responsável pela organização e controle das funções cerebrais. Ou algo assim. E que cabe ao lado direito se apegar aos detalhes que, em demasia, nos impediriam de possuir uma conduta razoavelmente normal.

Mas são os detalhes que o lado direito percebe que fazem toda a diferença. Vai ver que quando eu tenho lampejos de criatividade, algumas (poucas, infelizmente) boas idéias, quando realizo algo de que realmente me orgulho, vai ver é o lado direito do meu cérebro que deu sinal de vida. Ou então uma pane momentânea do outro lado se encarrega de dar espaço aos detalhes. Já sei: são os pequenos curtos-circuitos a bombordo que dão colorido à vida.

Mas são os especialistas, com seus lados esquerdos a todo vapor, que dizem isso. Talvez não seja nada disso. Até porque os especialistas não costumam concordar entre si. Mas se eles estiverem certos não é má idéia tomar uma paulada do lado esquerdo da cabeça...

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Indiferença (fragmento)

Um fragmento
A visão parecia embaçada e não sabia dizer se era a vista que dava sinais da necessidade de óculos ou se a poluição da cidade é que fazia o horizonte ficar turvo e aparentemente mais distante do que a lógica e a ciência calculariam. Naquele final de tarde, assim como em tantas outras situações, havia um véu separando seus olhos do mundo. Como se de dentro da caixa que chamamos de corpo não fosse possível e nem desejável alcançar esse mais além. No fundo talvez soubesse que era a indiferença que sentia para com o mundo que provocava aquela sensação de distanciamento de tudo e de todos.

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

Um ótimo livro num entorpecente mundo de críticas

Essa resenha eu publiquei no Território da Música. Lá também tem uma entrevista com o autor do livro.
Mês passado, o jornalista Tomás Chiaverini (na foto ao lado) lançou o livro "Festa Infinita - O Entorpecente Mundo das Raves". A obra é resultado de um ano inteiro de pesquisas, leituras, entrevistas e experiências 'in loco' - Tomás freqüentou diversas dessas festas pelo país.

O livro conta a história das raves, sua origem, quais as primeiras iniciativas por aqui e o crescimento da música eletrônica tupiniquim. "Festa Infinita..." destaca ainda alguns personagens desse mundo como Rica Amaral, André Meyer, Du Serena, Swarup e Alok. É claro que o jornalista também fala do uso excessivo de drogas nas raves pelo mundo afora.

Apesar do cuidado que o autor teve com a apuração - e que fica evidente durante a leitura - choveram críticas ao livro. A começar pelo título: entusiastas das raves acusaram Tomás de associar as festas exclusivamente às drogas. Certamente não leram ou não entenderam o livro. Ou não quiseram entender, o que é mais provável.

É claro que Tomás não foi às festas, não entrevistou produtores, DJs e freqüentadores para fazer uma peça publicitária das raves, contando como tudo lá é bonito e divertido. Nem tudo é apenas diversão numa rave. Mesmo buscando não fazer julgamentos, o autor é obrigado a relatar o que viu, como viu, o que nem sempre acaba como uma boa propaganda. Algumas pessoas ligadas à cena raver sentiram-se ofendidas. Bobagem. Tomás não ofendeu ninguém. Foi até condescendente muitas vezes.

Outra polêmica do livro é a passagem em que Tomás conta que experimentou ecstasy. Depois de falar sobre como age o ecstasy no organismo, ele conta suas sensações e pensamentos sob efeito da droga. Talvez esteja aí a única coisa realmente passível de crítica em todo o livro, mas Tomás rebate: "Você, leitor, vai numa rave, vai querer tomar um ecstasy então é o seguinte: você pode ter uma viagem fantástica, mas seu corpo estará sofrendo com hipertermia, desidratação, desequilíbrio de neurotransmissores e etc." O que para ele foi jornalismo, para outros pareceu sensacionalismo.

Mas resumir "Festa Infinita..." a essa passagem ou às referências ao uso de drogas nas festas é no mínimo injusto. O livro cobre vários aspectos desse fenômeno comportamental e a escolha do jornalismo literário para retratá-lo aproxima o leitor das experiências vividas pelos freqüentadores das raves. Nas palavras do próprio Tomás: "As raves são um prato cheio para esse tipo de narrativa, que usa técnicas de ficção para falar da realidade. O resultado é um texto que permite ao leitor, mesmo aquele que nem sabe do que se trata uma rave, mergulhar nesse universo."

Preenchendo uma lacuna na literatura sobre comportamento - não há nenhum registro tão completo sobre o assunto no Brasil - "Festa Infinita - O Entorpecente Mundo das Raves" é um livro interessante, de fácil assimilação e convida o leitor a conhecer esse entorpecente mundo. É recomendado a amantes de música, a estudiosos do comportamento humano e a curiosos em geral.

Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

Meu domingo na Virada Cultural 2009




Os efeitos de uma noite inteira de shows e apresentações são visíveis na manhã de domingo no centro de São Paulo. Entre o lixo que se acumula nas vias e calçadas - e que os garis não vencem recolher - rostos esmaecidos pelo sono, olhos vermelhos não apenas de cansaço e palavras incongruentes de bocas bêbadas enchem as ruas que começam a receber novos visitantes e novas atrações.

Apesar do lixo e do forte cheiro de urina em alguns pontos - mesmo com 900 banheiros químicos espalhados em diversos locais - é bonito ver o centro da cidade tão agitado, com tantas pessoas sorrindo e crianças brincando.

Em frente à Praça do Patriarca, enquanto aguarda o início da apresentação "Le Chant des Sirènes" (o Canto das Sirenes), um menino loirinho que devia ter uns quatro anos avisa ao pai, apontado as sirenes instaladas no alto da estrutura de concreto da praça: "O que eu sei é que vai vibrar". E logo as sirenes vibram ao comando de um instrumento inusitado dos franceses do Mécanique Vivante.

O músico e seu instrumento que parece um theremim digital misturado com violoncelo fazem sua apresentação e logo depois o trombonista brasileiro Bocato sobe ao palco para uma participação especial. A música barulhenta e cacofônica faz algumas crianças tamparem os ouvidos. De repente sinto uma dissonância que não parecia fazer parte da apresentação: há um sino tocando, mas não tem sinos no palco. É a igreja da praça que resolve também participar do 'Canto' ao meio dia. Quase ninguém nota a interferência.

Sigo andando e reparo que não encontro as anunciadas Maratonas de Rua - até o final do dia foram poucas ou eu desencontrei delas. No Lgo. São Bento a DJ Cinara com "C", como anuncia o apresentador, agita o palco Black montado em frente ao Mosteiro com sua fachada imponente quase escondida atrás das batidas e das performances de break. Carrinhos de sorvete vendem bebidas coloridas certamente alcoólicas enquanto o apresentador incentiva o público a dançar e a não deixar de visitar a página da DJ Cinara com "C" no orkut e no MySpace. Quando a DJ coloca uma música que fala algo sobre uma 'treta' concluo que é hora de seguir adiante. Outras atrações me aguardam.

No Vale do Anhangabaú, um ônibus com um palco adaptado em sua lateral oferece aulas de dança de salão. Na caixa de som, o forró diz algo como "É proibido cochilar". Ao som de sanfonas, casais ensaiam passos: alguns com timidez e outros sem nenhum medo de ser feliz. Sem me deixar levar pela energia do forró, resolvo almoçar.

Vem então um dos pontos altos do meu roteiro: o Tango Sumo. Cinco homens e cinco camas fazem do palco improvisado um dormitório-prisão imaginário (aqui há uma resenha sobre essa apresentação). Ainda boquiaberta pela bela performance que acabei de assistir, percebo que o atraso para o início do Tango Sumo me faz perder boa parte da apresentação da Companhia de Ballet da Cidade de Niterói que acontece logo ali ao lado no mesmo Anhangabaú. Só vejo o final.

De lá me dirijo para a Praça Ramos onde os californianos do Mass Ensemble apresentam a Earth Harpa, uma harpa realmente monumental como anuncia o prospecto: as cordas têm 130 metros de comprimento e se estendem do palco até o alto do Teatro Municipal. O som metálico que elas produzem cria uma música hipnótica que embala alguns 'viradeiros' numa soneca pelos cantos da praça.

Assim que a apresentação termina subo para o Viaduto do Chá onde o grupo Acrobático Fratelli faz mais uma de suas "Travessias". O artista sobrevoa o viaduto de ponta a ponta, dependurado em um cabo e dando a impressão de ser 'uma bruxa montada numa vassoura'. É o comentário de uma senhora surpresa. Na escadaria do Teatro Municipal estão estranhas figuras de negro com guarda-chuvas. São artistas do Les Souffleurs que percorrem as ruas com longos tubos e oferecem poemas sussurrados ao ouvido dos passantes. Um senhor aceita sem entender do que se trata, mas a moça é tão bonita e simpática que ele não resiste. Uma jovem ouve os poemas sussurrados através do tubo com os olhos fechados.


Mais adiante, na Rua Conselheiro Crispiniano, o palco dedicado à música instrumental atrai um público maior do que se poderia supor. O Kleztory, um grupo canadense, toca animadas canções que misturam influências de diversas culturas. Há uma melodia que me faz lembrar as canções russas de minha avó, mas junto a isso identifico jazz, country americano, folk e música cigana. O público reage com entusiasmo e aplaude ao fim de cada canção.

Na famosa Av. Ipiranga, um grafiteiro decora com suas tintas uma banca de jornais sob os olhos da platéia. A Praça da República recebe o palco Rock que mais parece um Woodstock paulistano com a apresentação do Sitar Hendrix. Assisto uma parte do show, mas logo me chamam a atenção as moças vestindo apenas calcinhas e com o corpo todo pintado subindo em árvores ao lado do palco. Chego mais perto e vejo que um rapaz pinta seus corpos enquanto elas os esticam e retorcem num ritmo que nada tem em comum com a música que rola no palco. Parecem em transe. Assim como os marmanjos que se aglomeram para vê-las certamente dando mais atenção às curvas do que à arte.

O sol já está bem baixo e sigo para a última atração do meu roteiro, a coreografia entre um bailarino e uma retro escavadeira. Na apresentação, da Cie Beau Geste, homem e máquina parecem se entender apesar da fragilidade de um e da brutalidade do outro (mais sobre esse ballet, aqui). Uma bela apresentação para terminar um dia com tantos estímulos áudio visuais.
Esse texto foi originalmente publicado no Território da Música.

Domingo, 3 de Maio de 2009

Virada Cultural 2009


Passei o domingo na Virada. A apresentação do Tango Sumo foi minha atração favorita.
Logo publico aqui um texto. Depois que ele for pro Território da Música, claro.

Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

Querido diário...

Eu já falei algo aqui sobre isso, mas não diretamente. Estou escrevendo tentando escrever um livro sobre a história da minha família. A saga dos Romanov, como disse meu pai.

Na verdade é um recorte que foca na época de meus avós maternos, num período que vai do início do século passado até meados da década de 60. Será baseado em fatos reais, mas haverá um pouco de invenção também. É uma reconstrução de vidas como provavelmente é toda história desse tipo.

No final de semana passado encontrei meu tio - irmão da minha mãe - e pudemos conversar sobre coisas que ele lembra a infância na Alemanha e também sobre o que ele lembra das histórias que lhe contaram. Com minha mãe já tive uma porção de conversas dessas. Estou com um material bem legal e agora falta escrever. Ainda vou consultá-los inúmeras vezes, principalmente minha mãe que me é mais próxima - meu tio vive em outra cidade.

O mais curioso é notar como ele e minha mãe lembram as coisas de forma diferente ou como gravaram aspectos diferentes dos mesmos fatos ou histórias que ouviram de seus pais e avós. Nossa memória é mesmo seletiva, subjetiva e emocional.

Ah, esses dias resolvi reescrever o primeiro capítulo do livro. Eu sabia que iria mexer nele, de qualquer maneira, então não foi uma decisão muito difícil. A essência será a mesma, só vou colocar numa perspectiva diferente. Vou narrar em primeira pessoa. Vamos ver se melhora fica bom.

O que me preocupa nisso tudo é a cobrança que aumenta. As expectativas da dona Naia (minha mãe) estão altíssimas e não sei se vou corresponder a essa ansiedade toda. Dona Naia tem delírios a idéia de dar entrevista pro Jô Soares e eu nem sei se o resultado dessa escrevinhação será publicável.

Acidente doméstico


Isso é o que acontece quando você deixa uma lata de refrigerante no freezer mais tempo do que devia. Ela explode. Bonita mesmo ficou a escultura de guaraná congelado no interior do freezer.

Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

Eu não resisto

Sabe quando você vê, lê ou ouve alguma coisa e precisa comentar com alguém? Como meu marido não mercece que eu fique contando os livros que leio e/ou e lendo trechos que eu achei geniais - e que ele ouve com uma paciência que só o amor justifica - eu posto eles por aqui.

Então vai mais um trechinho do Vonnegut, que estou terminando:
"E a população engoliria toda a comida, nham, nham, glup, glup, e então toda essa comida não seria mais que excrementos e lembranças." (Galápagos, p. 70)

Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Porque eu gosto do Vonnegut...

Sempre que leio um livro do Kurt Vonnegut me vem aquela mesma sensação de prazer e estranhamento. É sempre uma realidade bizarra, uma situação impossível, vivida por personagens quase comuns, que poderiam ser o seu vizinho, eu ou você mesmo.

Já li diversos livros do Vonnegut mas sempre que inicio um novo (novo para mim, que fique claro, o autor já é falecido, não há nada realmente novo dele) tenho uma reação que me faz pensar: como esse cara consegue escrever desse jeito? De onde tira isso tudo? Tem um pouco de inveja nisso, sem dúvida.

É por coisas desse tipo que eu adoro o Vonnegut:

"Sobre aquele entusiasmo mistificador de há um milhão de anos, de confiar às máquinas todas as atividades humanas possíveis: o que poderia ter sido isso senão outro atestado de que o cérebro das pessoas não era coisa que prestava?" (Galápagos, p. 40)

A frase é do narrador, um humano (?) que conta a história de seres que deram origem à sua raça. Se passa há um milhão de anos, no longínquo ano de 1986.

Segunda-feira, 23 de Março de 2009

Just a Fest: o lado bizarro dos festivais

O show foi lindo. OS shows. Tanto o Krafwerk quanto o Radiohead. Publiquei uma resenha no Território da Música. Aqui no blog farei comentários marginais sobre o festival.

Um festival é sempre uma experiência intensa. Nem sempre agradável. Pra mim, nunca é. Só fui mesmo porque era o Radiohead e eu não ia perder o Thom Yorke por nada desse mundo. Vamos lá.

O Local
A Chácara do Jóquei é um lugar usado para treino de cavalos. Imagina o cheiro de esterco que emana de alguns de seus recônditos. Os banheiros (os femininos, quanto aos masculinos, não sei) eram aquelas cabines chamadas de banheiros químicos.

Aquilo já é nojento em seu conceito. Duas fileiras dessas caixinhas escuras - não tem luz dentro delas, você faz suas necessidades no escuro e é melhor não tatear para encontrar o que quer que seja; vai que você acha, não é mesmo? - foram dispostas numa espécie de corredor do que me pareceu um estábulo. Consegue imaginar o odor? Necessidades humanas e de cavalos criavam um amálgama fétido.

Mudemos de assunto, só fiz xixi uma vez e foi uma experiência única. Bom, aí tem a pista... era um gramado que por causa de chuvas do dia anterior e da garoa do domingo virou lama em alguns pontos. Podia ser pior se tivesse chovido no dia do show. Mesmo com Thom Yorke chamando chuva com sua voz de quem está morrendo - Rain down, rain down / Come on rain down on me, na letra de “Paranoid Android” -, não choveu. Ufa!

Maconha
Minha pergunta é: por quê? Por que as pessoas fazem questão dessa erva mal cheirosa? Não me bastava o esterco e a lama, tinha também o cheiro enjoativo de maconha para todos os lados. Vejam, não sou contra. Quem quiser que fume. Mas sou obrigada a sentir o cheiro? Proponho que se faça uma área de fumantes de maconha. E que eles se acabem na marofa sozinhos. Sem contar que maconha é uma coisa cafona, demodê.

Jornalista quarentão (ou tio Sukita)
Um jornalista que escreve para a versão online de um grande jornal estava bem na minha frente durante o show do Radiohead. Protagonizou uma cena realmente patética.

Uma moça passou e o cumprimentou. Pareciam ser amigos. Então o jornalista, um quarentão, músico, até boa pinta, começou a dar em cima da garota. Ela devia ter uns 15 anos menos que ele. Até aí, ok. Mas acontece que a garota não estava a fim. E o jornalista começou a insistir, abraçando-a, agarrando-a. Tentando beijá-la de qualquer maneira. As pessoas ao lado começaram a olhar. Ela sorria um sorriso amarelo, sem jeito.

Até que ela conseguiu se desvencilhar do tio Sukita e seguiu andando. Sem olhar pra trás. Já ele, olhou para a esquerda, olhou para a direita, olhou pra cima. E saiu andando também. Devia estar envergonhado o tio Sukita. Sei, não se deve caçoar de alguém que seu deu mal. Mas pra que se colocar numa situação tão ridícula? Deprimente.

Táxi
A saída (assim como a entrada, só que bem pior) foi difícil. O gargalo de saída para 30 mil pessoas era obviamente pequeno. Depois de seguir a manada, já do lado de fora, fui à caça de um táxi. Encontrei um livre. O motorista me perguntou para onde eu ia. Quando falei, ele respondeu: "Ah, não vai dar. Sabe o que é? Moro aqui perto". Pensei que fosse uma pegadinha, mas não era. A pergunta que não quer calar: o que este imbecil estava fazendo ali, se não tinha intenção de pegar passageiro?

Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Asimov, o acordo ortográfico e muitos ácaros

Estou lendo mais um livro do Isaac Asimov, "Poeira de Estrêlas". Sim, 'estrÊlas' com acento circunflexo. O livro é da época de um outro acordo ortográfico. O exemplar que possuo é a terceira edição da Editôra Expressão e Cultura, de 1972. Em 72, pouco antes de eu nascer, se escrevia 'estrêla' e 'editôra'.

Aliás, me chamou a atenção o excesso de circunflexos: êle, interêsse, desconfôrto, êsse, aquêle, dêle, sôbre, sêca, fôr, fôsse, pôsto, bôlha, sêres, môça, contrôle, mêdo, tôlamente, vêzes, planêta, côr, sôlta, fôrça, esfôrço, pêso, tôda, govêrno. Chapéu do vovô (aprendeu isso na escola?) pra todo lado.

Sem contar o bizarro acento grave, que foi completamente abolido da língua portuguesa (tanto no Brasil quanto em Portugal). A gente só usa quando junta dois 'a'. E nesse caso se chama crase. Enfim, até o início da década de 70 se escrevia coisas sinistras como sùbitamente, provàvelmente, sòmente, sòzinho, ràpidamente, pròpriamente. O acento era usado pra indicar que a sílaba não era aguda, embora na palavra de origem fosse: rápido (1ª sílaba aguda) - ràpidamente (a primeira síliba é subtônica).

As páginas do livro - em papel jornal - já não são mais amarelas, estão adquirindo um tom castanho. Só não dá para achar muito engraçado quando eu penso na quantidade de ácaros que estou respirando enquanto leio...

Quanto ao Asimov, é delicioso, como sempre. "Poeira de Estrêlas" é uma leitura fácil e agradável - no caso dessa edição, nem tanto - cujo destaque é a criatividade do mestre da ficção científica.